A origem
Uma ideia francesa que criou raízes no Brasil
A raiz intelectual é o método GP (méthode GP, das iniciais de Georges Perrin), criado pelo engenheiro francês Georges Perrin (Chalon-sur-Saône, 1891 a 1958), formado pela École Centrale. Segundo os arquivos de família estudados pelos historiadores franceses da contabilidade de gestão, a abordagem estava conceitualmente estabelecida em 1938 e ficou tecnicamente operacional em 1945. Perrin a apresentou publicamente em novembro de 1953, em comunicação à Société des Ingénieurs Civils, sob um título que resume o programa inteiro: o princípio da unificação da medida da produção na gestão das indústrias de fabricações múltiplas. A intuição central é que o esforço relativo que diferentes operações exigem de uma fábrica permanece aproximadamente constante ao longo do tempo, mesmo quando os preços se movem. Se isso vale, o esforço pode servir de unidade de medida, e a inflação deixa de contaminar a comparação entre períodos.
Uma curiosidade que vale registrar, justamente porque não explica nada: o próprio Perrin morou no Brasil entre 1920 e 1925, como engenheiro ligado à direção da Lage Frères, no Rio de Janeiro. Não há qualquer evidência de que tenha sido por aí que o método chegou ao Brasil quarenta anos depois, e seria desonesto sugerir isso. É apenas uma coincidência bonita na biografia de um método que acabaria brasileiro.
Em julho de 1945 Perrin fundou uma consultoria com o nome da própria técnica, La Méthode GP. Ele morreu em 5 de fevereiro de 1958. Sua esposa, Suzanne Perrin, que já assumira a gerência do gabinete durante a doença dele, manteve a casa aberta e garantiu junto à Dunod a publicação, em 1962, da obra póstuma Prix de revient et contrôle de gestion par la méthode G.P., na qual figura como colaboradora. Na França o alcance foi real, mas modesto: cerca de 150 empresas haviam adotado o método até o fim dos anos 1960.
É a Suzanne, e não a Perrin, que se deve a sobrevivência da técnica na França, por uma via curiosamente jurídica. Ela assinou sucessivos acordos de exploração do método, o último deles em 1975 com o escritório Les Ingénieurs Associés (LIA), dirigido por Jean Fiévez. Zelosa da obra do marido, recusava alterações e, em 1977, não renovou o contrato. A cláusula de saída permitia ao LIA seguir usando um método equivalente desde que mudasse o nome. Foi assim, por obrigação contratual, que nasceu na França a méthode UP (unité de production).
O capítulo brasileiro começa com Franz Allora, descrito na literatura brasileira como engenheiro italiano e discípulo de Perrin, que veio para o Brasil no início dos anos 1960 e aqui fez carreira como gerente e diretor industrial. Vale a honestidade: essa filiação é afirmação corrente da literatura brasileira, a começar por Bornia, mas o nome de Allora não aparece no acervo arquivístico francês sobre Perrin. Registramos as duas coisas. Allora estudou e aperfeiçoou a técnica, chamou sua unidade de UP e, a partir de 1978, passou a implantá-la em empresas das regiões de Blumenau e Joinville, em Santa Catarina, por meio da consultoria que fundou em Blumenau, a Tecnosul, hoje conduzida por seu filho Valerio Allora. Relatos históricos falam em cerca de 30 empresas alcançadas naquele período; é uma lembrança documentada, não uma medição. O que Allora acrescentou não foi apenas custo: ele transformou a unidade em instrumento de controle industrial, medindo produtividade, capacidade e ponto de equilíbrio físico. Até hoje UP é o nome da casa Allora e UEP o nome consagrado pela academia.
O passo decisivo, porém, foi acadêmico. Em meados dos anos 1980 o método passou a ser estudado por grupos de pesquisa da UFSC e da UFRGS. Em 1988, Antonio Cezar Bornia defendeu na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a dissertação de mestrado Análise dos princípios do método das unidades de esforço de produção, que dissecou a lógica do método e virou a referência canônica em português. No mesmo ano e nos seguintes a UFSC produziu outras dissertações sobre o tema, e Francisco José Kliemann Neto, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), desenvolveu e ensinou o método, sendo creditado pela formulação do princípio do valor agregado. Daí em diante, o Congresso Brasileiro de Custos e o ENEGEP deram à UEP um fluxo contínuo de estudos de caso que dura até hoje. É por isso que a UEP é matéria corrente em cursos brasileiros de engenharia de produção e de ciências contábeis, e praticamente desconhecida em inglês.
E o método voltou para casa. A partir de 1992, Jean Fiévez trouxe Robert Zaya para relançar a técnica no LIA; como as aplicações já extravasavam o custo de produção e alcançavam quase todos os gastos da empresa, em abril de 1995 a abordagem mudou de nome novamente, agora para método UVA (unité de valeur ajoutée). Em 1999, Fiévez, Kieffer e Zaya publicaram pela Dunod La méthode UVA, com prefácio de Henri Bouquin. Os próprios historiadores do método observam que não há diferença conceitual significativa entre GP e UVA: a UVA é o GP corrigido e estendido às funções de apoio.
O resultado é uma linhagem rara, e até onde sabemos ninguém a conta inteira em um só lugar: um método francês que quase morreu em casa, sobreviveu emigrando para o Brasil, virou aqui disciplina universitária, e reapareceu na França com outro nome por força de uma cláusula contratual. Contamos o lado francês dessa história em la méthode UEP (em francês).
| Ano | Marco |
| 1891-1958 | Georges Perrin, engenheiro francês formado pela École Centrale |
| 1920-1925 | Perrin trabalha no Rio de Janeiro (sem ligação comprovada com o que viria depois) |
| 1938-1945 | Método concebido e tornado operacional |
| 1945 | Perrin funda a consultoria La Méthode GP |
| 1953 | Primeira apresentação pública do método GP |
| 1958 | Morte de Perrin; Suzanne Perrin mantém o gabinete |
| 1962 | Dunod publica a obra póstuma de Perrin |
| anos 1960 | Franz Allora chega ao Brasil |
| 1975-1977 | Acordo com o LIA e sua não renovação; a troca de nome origina a méthode UP |
| 1978 | Allora implanta o método a partir de Blumenau (SC) |
| 1988 | Dissertação de Bornia na UFSC formaliza os princípios do método |
| 1995 | Na França, a linhagem passa a se chamar método UVA |
| 1999 | Dunod publica La méthode UVA |
Onde as fontes divergem, dizemos menos. O ano de 1962 segue o registro de autoridade da Biblioteca Nacional da França, e não a data de 1963 que circula em muitas listas de referência. A nacionalidade italiana de Allora e sua ligação pessoal com Perrin são afirmadas pela literatura brasileira mas não constam do acervo francês. Há ainda textos que situam as primeiras aplicações em Santa Catarina já nos anos 1970. Por isso indicamos décadas onde o ano não é seguro, e atribuímos quando a fonte é de um lado só.