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Brasil

Cascata de margem: da receita bruta ao lucro real por cliente

A cascata de margem mostra, degrau por degrau, o que sobra da receita de cada cliente depois de descontos, custo do produto e custo para servir. É a forma mais honesta de enxergar onde o lucro nasce e onde ele se perde, porque acompanha o dinheiro do faturamento até o lucro líquido real.

Em resumo

A cascata de margem decompõe a lucratividade de um cliente em etapas: receita bruta, descontos, impostos sobre a venda, receita líquida, custo do produto, margem bruta, custo para servir e lucro real. Cada degrau retira uma parcela. O custeio tradicional para na margem bruta. O TDABC vai até o fim, revelando clientes que pareciam lucrativos mas terminam no vermelho.

Os degraus da cascata

Os degraus da cascata

A cascata de margem para um cliente costuma ter estes degraus:

  1. Receita bruta (faturamento total antes de qualquer abatimento)
  2. (menos) Descontos e abatimentos
  3. (menos) Impostos incidentes sobre a venda (ICMS, PIS, COFINS, ISS, conforme a operação)
  4. = Receita líquida
  5. (menos) Custo do produto vendido
  6. = Margem bruta (onde a maioria das empresas para de olhar)
  7. (menos) Custo para servir (pedidos, entregas, atendimento, devoluções)
  8. = Lucro real do cliente

O ponto crítico está entre o degrau 6 e o 8. Dois clientes com a mesma margem bruta podem ter lucro real muito diferente, dependendo de quanto trabalho cada um dá.

Exemplo prático com a CaP
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A cascata de margem: a bruta lisonjeia; o custo de servir decide.

Exemplo prático com a CaP

Veja dois clientes da distribuidora fictícia CaP, ambos com R$ 100.000 de receita líquida e R$ 35.000 de margem bruta (35%):

Cliente A (pedidos grandes, pouco atrito): - Margem bruta: R$ 35.000 - Custo para servir: R$ 6.000 - Lucro real: R$ 29.000 (29%)

Cliente B (muitos pedidos pequenos, urgências, devoluções): - Margem bruta: R$ 35.000 - Custo para servir: R$ 41.000 - Lucro real: R$ -6.000 (prejuízo)

Na margem bruta, os dois pareciam iguais. Na cascata completa, o Cliente B destrói valor. É exatamente esse efeito que faz a CaP, com lucro líquido de R$ 736.929 (16,4%), ter na curva da baleia um pico de R$ 753.137. Os clientes lucrativos levam o acumulado acima do lucro final, e a cauda (com casos como o Cliente B) puxa de volta, destruindo cerca de R$ 16.208.

Por que parar na margem bruta engana

Por que parar na margem bruta engana

A margem bruta é uma foto incompleta. Ela ignora todo o esforço operacional que vem depois da venda. Quando você ranqueia clientes só por margem bruta, premia os errados e penaliza os certos. A cascata de margem corrige isso ao incluir o custo para servir, que o TDABC mede com precisão.

O que fazer com a cascata na mão

O que fazer com a cascata na mão

Com a cascata por cliente, você consegue agir com cirurgia: renegociar descontos do degrau 2, reduzir o custo para servir do degrau 7, ou reprecificar a relação. O objetivo é mover clientes da cauda para a faixa lucrativa sem perder volume saudável. É gerenciar lucro real, não faturamento.

O degrau que a versão importada esquece

Entre a receita bruta e a receita líquida há um degrau tributário

Uma cascata de margem escrita para o mercado europeu costuma ir da receita bruta direto para a receita líquida, descontando apenas devoluções e abatimentos. No Brasil isso não fecha, porque receita líquida tem definição própria: é a receita bruta menos as devoluções e os descontos incondicionais e menos os tributos incidentes sobre a venda. Essa é a estrutura da demonstração do resultado prevista na Lei 6.404/76, e é ela que o auditor vai procurar.

O que torna esse degrau interessante para análise de lucratividade é que ele não é uniforme entre clientes. A alíquota de ICMS depende do estado de destino e do tipo de operação, interna ou interestadual. A substituição tributária desloca a incidência para uma etapa anterior da cadeia e muda onde o imposto aparece no seu resultado. E o regime da empresa altera o tratamento de PIS e COFINS, cumulativo no Lucro Presumido e não cumulativo, com direito a crédito, no Lucro Real. Dois clientes com o mesmo faturamento podem, portanto, chegar a receitas líquidas diferentes antes que um único custo indireto seja alocado.

Vale fazer a conta ao contrário para ver o tamanho do efeito. Os dois clientes do exemplo acima chegam ambos a R$ 100.000 de receita líquida. Se as deduções do Cliente A somam 26% da receita bruta e as do Cliente B somam 22%, então o Cliente A faturou R$ 135.135 e o Cliente B faturou R$ 128.205 para produzir a mesma receita líquida. O relatório comercial, que olha faturamento, coloca A na frente por quase sete mil reais. A cascata, que começa na receita líquida, mostra os dois empatados no primeiro degrau e depois separa-os pelo custo para servir, não pelo tamanho da nota fiscal.

Duas regras práticas seguem daí. Primeira: construa a cascata a partir da receita líquida por cliente, e não do faturamento, ou você vai medir política tributária e chamar isso de desempenho comercial. Segunda: mantenha o degrau tributário visível em vez de embuti-lo no preço, porque com a transição da reforma tributária sobre o consumo em curso até 2033 ele é justamente o degrau que mais vai se mexer nos próximos anos.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes

O que é cascata de margem?

É a decomposição passo a passo da lucratividade de um cliente, da receita bruta até o lucro real, passando por descontos, custo do produto e custo para servir.

Qual a diferença entre margem bruta e lucro real do cliente?

A margem bruta desconta só o custo do produto. O lucro real também desconta o custo para servir, mostrando o que de fato sobra de cada cliente.

O que é custo para servir?

É todo o custo gerado depois da venda: processar pedidos, separar no estoque, entregar, faturar, atender e tratar devoluções.

Como a cascata de margem ajuda na decisão?

Ela revela em qual degrau o lucro escapa, permitindo ações específicas: renegociar desconto, baixar custo para servir ou reprecificar, em vez de cortes genéricos.

Prova

Um distribuidor na Nova Zelândia. €1,335M de custo de servir tornado visível, depois reduzido à metade, e 830 clientes deficitários reduzidos a 295.

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Com quem você vai falar

Miguel Guimarães, Sócio-fundador

Trabalhando com custos e lucro há mais de 25 anos. Apresentou o caso de cost-to-serve da Damco no Managing for Profit (Amsterdã RAI, dezembro de 2009), no mesmo programa que Robert S. Kaplan.

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Miguel Guimarães

Sócio-fundador, Cost and Profitability Consulting

Mais de 150 projetos de Time-Driven ABC em 11 setores desde 2010, dentro do enquadramento de Kaplan e Anderson.

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