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Precificação

Você está precificando em cima de um custo que não existe. Eis como corrigir.

A precificação baseada em custos só funciona quando o custo é verdadeiro. A maioria das empresas define preços em cima de um custo médio que reparte as despesas por igual e esconde quem dá lucro e quem dá prejuízo. Quando você conhece o custo real de servir cada cliente e cada produto, o preço deixa de ser um chute e passa a proteger a sua margem. É isso que o custeio baseado no tempo torna possível: um preço que parte do que o cliente realmente custa, não de uma média que dilui a verdade.

Cost and Profitability Consulting · 150+ modelos desde 2010 · TDABC

Em resumo

Precificação baseada em custos reais significa definir o preço a partir do que de fato custa produzir e entregar para cada cliente, e não a partir de uma média geral. O custeio tradicional dilui o custo de servir em rateios, fazendo os bons clientes subsidiarem os caros. O TDABC mede o custo real, atribui a cada cliente o tempo e os recursos que ele consome, e revela onde o preço está errado. O preço honesto tem dois componentes: o custo do produto e o custo de servir. Ignorar o segundo é a razão pela qual dois clientes com a mesma margem bruta terminam o ano com margens líquidas opostas.

01O problema do custo médio

O custo médio cobra o mesmo de quem custa três vezes mais.

Imagine que a CaP, uma distribuidora B2B ilustrativa, calcula o seu custo aplicando uma porcentagem fixa de despesas sobre cada pedido. No papel, todos os clientes parecem ter a mesma margem. Na prática, um cliente que faz cinquenta pedidos pequenos por mês, exige entregas urgentes e liga toda semana custa muito mais para servir do que um cliente que faz um pedido grande por trimestre e não dá trabalho.

Quando você usa a média, o cliente fácil está pagando caro e financiando o cliente difícil. Você precifica às cegas e, sem perceber, espanta justamente quem lhe dá lucro. O custo médio é um número arrumado que esconde a verdade: ele reparte a despesa por igual entre transações que não são iguais, e o preço que sai dele carrega esse erro para dentro de cada negociação.

02A margem bruta não vê o cliente caro

A margem bruta não separa o cliente caro do cliente barato.

Muita gente para na margem bruta, ou na margem de contribuição, que é o preço menos o custo variável do produto. É um bom começo, mas ignora o custo de servir, que é justamente onde a lucratividade some. Dois clientes podem ter exatamente a mesma margem bruta e uma lucratividade final completamente diferente, porque um deles consome três vezes mais tempo de equipe, de transporte e de estoque.

A margem bruta olha para o produto e nunca para a relação. Ela não sabe distinguir o pedido único e limpo do pedido fracionado, urgente e devolvido pela metade. O custo de servir sabe. E é essa diferença, invisível para a margem bruta, que decide se um cliente é rentável depois de tudo contado. Precificar pela margem bruta é fixar o preço olhando para metade da conta.

03Os dois custos que formam o preço

Um preço honesto tem dois custos por dentro, não um.

Antes de somar qualquer margem, é preciso saber o que de fato entra no custo. Um preço honesto tem dois componentes, e o custeio tradicional enxerga bem o primeiro e quase nunca o segundo.

01

Custo do produto

Materiais, fabricação ou compra da mercadoria. É o custo que o ERP calcula bem, porque acompanha a unidade vendida. Estável, previsível, e quase sempre o único que aparece no cálculo de preço.

02

Custo de servir

Tirar o pedido, separar no estoque, faturar, transportar, cobrar, atender reclamação, receber devolução. É o custo que mais varia entre clientes, e o que o preço médio esconde. Dois clientes com o mesmo produto podem ter custos de servir opostos.

O custo de servir é o que muda de cliente para cliente. É por isso que precificar sobre um custo médio trata como iguais relações que não são iguais, e por isso que o TDABC começa exatamente aqui: medindo o tempo real que cada atividade consome antes de qualquer preço ser fixado.

04A fórmula do preço honesto

Custo mais margem, mas o custo tem de ser verdadeiro.

A mecânica do custo mais margem cabe em duas linhas. O que separa um preço defensável de um chute não é a fórmula, é o que você coloca no custo total.

Custo total do cliente = custo do produto  +  custo de servir (tempo x taxa)

Preço mínimo = custo total do cliente  x  (1 + margem desejada)

Uma ilustração trabalhada. Suponha um custo total de R$ 80,00 por unidade, já incluindo o custo real de servir aquele cliente, e uma margem desejada de 25 por cento.

Custo total unitário (produto + custo de servir) = R$ 80,00
Margem desejada                                  = 25%

Preço mínimo = 80,00 x 1,25 = R$ 100,00

A fórmula só protege a margem se os R$ 80,00 incluírem o custo real de servir aquele cliente, e não um custo médio tirado do ERP. Se os R$ 80,00 forem uma média, o cliente de pedidos urgentes e devoluções frequentes recebe o mesmo preço do cliente eficiente, e você volta ao subsídio cruzado, agora com uma fórmula por cima. Valores ilustrativos.

05O que o TDABC revela

Cliente a cliente, a curva mostra onde o lucro é destruído.

O TDABC, o custeio baseado em atividades e tempo formulado por Kaplan e Anderson em 2004, parte de duas perguntas simples: quanto custa um minuto da sua capacidade instalada e quanto tempo cada atividade consome. Com isso, ele atribui o custo real de cada processo, tirar o pedido, separar no estoque, faturar, entregar, atender reclamação, a quem efetivamente o gerou.

No exemplo ilustrativo da CaP, a empresa fecha o ano com lucro líquido de R$ 736.929, equivalente a 16,4 por cento de margem. Parece saudável. Mas ao olhar cliente a cliente, a curva da baleia revela um pico de lucro acumulado de R$ 753.137, ou seja, mais do que o lucro final. A diferença é destruída por uma cauda de clientes não lucrativos. Dois em cada dez clientes dão prejuízo, e a cauda sozinha consome cerca de R$ 16.208 do lucro que a empresa já tinha ganho. O custo médio escondia esse dano; o custo real o coloca em cima da mesa. Valores ilustrativos.

06Um exemplo por indústria: serviços profissionais

Dois clientes, o mesmo honorário, margens que não se parecem.

A curva da baleia mostra o padrão; um exemplo por indústria mostra a mecânica. Veja uma agência de serviços profissionais que cobra por retainer anual. A equipe de entrega custa R$ 420.000 por ano e tem capacidade prática de 600.000 minutos úteis, o que dá uma taxa de custo de capacidade de R$ 0,70 por minuto. Dois clientes pagam o mesmo honorário de R$ 50.000 por ano. Na margem bruta, são idênticos. No custo de servir, não. Valores ilustrativos.

Parâmetro (ilustrativo)Cliente A: briefing limpoCliente B: mudanças constantes
Honorário anualR$ 50.000R$ 50.000
Tempo de equipe consumido40.000 min60.000 min
Custo de servir (min × R$ 0,70)R$ 28.000R$ 42.000
Margem líquida (honorário − custo de servir)R$ 22.000R$ 8.000
Margem líquida em %44%16%

O mesmo honorário, o mesmo produto, e uma margem líquida que vai de 44 por cento a 16 por cento. A diferença inteira está no custo de servir: revisões intermináveis, pedidos urgentes, escopo que muda toda semana. Precificar os dois pelo mesmo valor médio significa que o Cliente A financia o Cliente B. Com o custo real na mão, a agência tem uma escolha real: cobrar pelas mudanças de escopo, redesenhar o jeito de atender o Cliente B, ou reprecificar o retainer para refletir o esforço que ele exige. Valores ilustrativos.

O ângulo da IA

A IA não define o seu preço. Ela afina o custo que entra nele.

A precificação baseada em custos depende de um custo de servir que seja confiável e atualizado, e é aí que a IA ajuda. Quando parte do atendimento, da conferência de pedidos ou do tratamento de reclamações passa a ser feita por um agente automatizado, o tempo que cada atividade consome muda, e a taxa de custo de capacidade muda com ele. Quem precifica sobre custo médio não vê essa mudança; continua cobrando como se o esforço fosse o mesmo. Quem precifica sobre o custo real de servir consegue reprecificar à medida que a operação muda, e distinguir a economia da automação de uma simples queda de volume. A IA acelera a leitura do custo; a decisão de preço continua sua.

07Três caminhos quando o preço está errado

Conhecer o custo real transforma o preço numa decisão de gestão.

Conhecendo o custo real, a precificação passa a ser uma decisão de gestão e não um exercício de fé. Para o cliente da cauda da CaP, ou para o Cliente B da agência, há três caminhos, e nenhum deles é demitir clientes.

Ajustar o preço. Reprecificar a relação ou cobrar pelos serviços extras que a encarecem: entrega expressa, pedidos fora do lote mínimo, atendimento dedicado, mudanças de escopo. O preço passa a refletir o esforço real, e o cliente decide se o valor justifica o custo.

Mudar o jeito de servir. Migrar pedidos pequenos para um canal mais barato, definir um lote mínimo, consolidar entregas, disciplinar o fluxo de revisões. Muitas vezes o problema não é o preço, é o custo de servir, e mexer na operação arruma a margem sem tocar no valor de tabela.

Reprecificar a relação inteira. Quando o custo de servir é estrutural, deixar claro o custo de cada exigência e renegociar a relação completa, em vez de subir o preço para todos. O ponto não é punir; é parar de subsidiar com o dinheiro de quem é rentável. Quando a CaP reprecifica apenas os clientes da cauda, ela protege os R$ 753.137 de lucro que já existem no pico da curva. Valores ilustrativos.

08Custo ou valor?

O custo real define o piso. O valor percebido define o teto.

Precificar pelo custo e precificar pelo valor não são rivais; são complementares. O custo real define o seu piso e mostra onde você está perdendo dinheiro. O valor percebido pelo cliente define o teto, o quanto o mercado aceita pagar. Você precisa dos dois, e o erro clássico é usar só um.

O custo mais margem brilha em contratos e licitações, em setores regulados e em catálogos grandes de custo estável, onde um preço rastreável ao custo é a linguagem natural da negociação. Ele fica cego quando ignora o que o cliente pagaria, quando o custo por dentro é uma média que esconde o custo de servir, e quando um markup fixo trata como iguais produtos e clientes que não são iguais. A saída não é escolher um lado, é conhecer o custo real para não regalar margem por baixo, e ler o valor para não deixar dinheiro na mesa por cima.

Perguntas frequentes

O que é precificação baseada em custos?
É definir o preço a partir do custo real de produzir e entregar, somado à margem desejada. A versão moderna usa o custo real de servir cada cliente, medido pelo TDABC, e não uma média geral que reparte as despesas por igual entre transações que não são iguais.
Qual a diferença entre custo médio e custo real?
O custo médio dilui as despesas igualmente entre todos os clientes e produtos. O custo real, medido pelo TDABC, atribui a cada cliente o tempo e os recursos que ele de fato consome, e por isso revela quem é rentável e quem não é depois de contado o custo de servir.
Como calcular o preço de venda a partir do custo real?
Some o custo do produto e o custo de servir daquele cliente, aplique a margem de contribuição desejada e compare com o preço de tabela atual. Se o preço ficar abaixo do custo total, há uma fuga de lucro que a média escondia.
Precificar pelo custo é melhor do que precificar pelo valor?
São complementares. O custo real define o seu piso e mostra onde você perde dinheiro. O valor percebido define o teto. Usar apenas o custo regala margem em produtos diferenciados; usar apenas o valor deixa fugas de custo invisíveis.
Subir o preço não espanta o cliente?
Nem sempre. Muitas vezes o problema não é o preço, é o custo de servir. Mudar o tamanho mínimo de pedido, a frequência de entrega ou a disciplina de revisões arruma a margem sem tocar no preço de tabela.
Como sei se estou precificando errado?
Se clientes parecidos têm lucratividade muito diferente, ou se o lucro acumulado por cliente no pico da curva é maior do que o lucro final da empresa, há subsídio cruzado e a precificação está distorcida.
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Com quem você vai falar

Miguel Guimarães, Sócio-fundador

Trabalhando com custos e lucro há mais de 25 anos. Apresentou o caso de cost-to-serve da Damco no Managing for Profit (Amsterdã RAI, dezembro de 2009), no mesmo programa que Robert S. Kaplan.

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Miguel Guimarães

Revisto por

Miguel Guimarães

Sócio-fundador, Cost and Profitability Consulting

Mais de 150 projetos de Time-Driven ABC em 11 setores desde 2010, dentro do enquadramento de Kaplan e Anderson.

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