Custeio RKW: o método dos centros de custos, explicado
O custeio RKW é o método alemão de apropriação de custos por centros de custos que a contabilidade brasileira absorveu cedo e nunca mais largou. Ele reparte todos os custos, e no seu formato pleno também as despesas administrativas e comerciais, por centros de custos, e dos centros para os produtos, por bases de rateio. É o avô metodológico de boa parte da planilha de rateio que roda hoje nas indústrias brasileiras. Esta página explica de onde ele veio, como funciona passo a passo, com um exemplo em reais, e onde ele para.
O método RKW divide a empresa em centros de custos, acumula os custos de cada centro em um mapa de localização de custos, rateia os centros auxiliares para os produtivos e chega a uma taxa de custo por centro, que aplica aos produtos pelo tempo que consomem. No formato de custeio pleno, leva até o produto também as despesas de administração e vendas. Sua força é a disciplina departamental; seus limites são as bases de rateio por volume, a capacidade ociosa escondida dentro das taxas e o fato de parar no produto, sem alcançar cliente e canal, que é o território do custo para servir e do TDABC.
Um órgão alemão de 1921 que virou método brasileiro
RKW são as iniciais de Reichskuratorium für Wirtschaftlichkeit, o conselho criado na Alemanha em 1921 para promover a racionalização e a eficiência da economia do pós-guerra. O órgão existe até hoje, como RKW Kompetenzzentrum. O que ele padronizou, e que o mundo de língua portuguesa acabou batizando com as suas iniciais, foi uma técnica de apuração: dividir a empresa em centros de custos, acumular os custos de cada centro em um mapa de apropriação (o Betriebsabrechnungsbogen, no Brasil chamado de mapa de localização de custos), ratear os centros de apoio sobre os centros produtivos e levar o custo dos centros aos produtos.
No Brasil, a técnica entrou pela via do ensino e da prática contábil industrial, e criou raízes fundas. A literatura brasileira de custos consagrou o nome: é o "método RKW", também chamado de método dos centros de custos, e, quando leva despesas administrativas, comerciais e até financeiras ao produto, de custeio pleno ou custeio integral. Eliseu Martins dedicou-lhe discussão no manual mais usado do país, e a escola de engenharia de produção do Sul, a mesma que formalizou o método UEP, ensina o método dos centros de custos como técnica de base. É por isso que tanta indústria brasileira, ao dizer "nosso rateio", está descrevendo, sem saber, um RKW simplificado.
Vale separar duas coisas que costumam se misturar. O RKW é a técnica clássica; a evolução alemã posterior, com centros em profundidade muito maior e separação rigorosa entre custo fixo e proporcional, é o GPK. O RKW que se pratica no Brasil é, na maioria dos casos, a versão clássica: centros contábeis, bases de rateio simples, custo pleno por produto.
Como o custeio RKW funciona, em cinco passos
A implantação clássica segue uma sequência estável. É a rotina mensal de fechamento de custos de milhares de indústrias.
Centros produtivos (usinagem, montagem, pintura), centros auxiliares (manutenção, utilidades, administração da fábrica) e, no custeio pleno, também centros de administração e vendas. O critério costuma seguir o organograma e o plano de contas.
Cada custo do período é atribuído ao seu centro no mapa de localização de custos: salários e encargos onde a pessoa trabalha, depreciação onde a máquina está, energia por medição ou estimativa.
Os centros de apoio são distribuídos aos centros produtivos por bases de rateio: manutenção pelas horas de atendimento, administração da fábrica pelo número de funcionários, utilidades pelo consumo. Em geral em sequência, do centro mais geral para o mais específico.
O custo total de cada centro produtivo, já carregado com a sua fatia dos auxiliares, é dividido por uma medida de volume do centro: horas-máquina, horas-homem, quilos processados. Nasce a taxa horária do centro.
Cada produto recebe custo pelo tempo que consome em cada centro, vezes a taxa do centro. Matéria-prima entra por apontamento direto. No custeio pleno, as despesas administrativas e comerciais são então rateadas sobre os produtos, tipicamente por percentual sobre o custo ou sobre a receita.
Um RKW pequeno, de ponta a ponta, em reais
Uma metalúrgica com dois centros produtivos e dois auxiliares, custos indiretos de R$ 480.000 no mês, números ilustrativos.
| Centro | Custo próprio | Recebe da adm. fábrica | Recebe da manutenção | Total |
|---|---|---|---|---|
| Administração da fábrica | R$ 90.000 | rateado | ||
| Manutenção | R$ 60.000 | R$ 10.000 | rateado | |
| Usinagem | R$ 200.000 | R$ 45.000 | R$ 49.000 | R$ 294.000 |
| Montagem | R$ 130.000 | R$ 35.000 | R$ 21.000 | R$ 186.000 |
A administração da fábrica (R$ 90.000) foi rateada pelo número de funcionários: 10 na manutenção, 45 na usinagem, 35 na montagem. A manutenção, já com R$ 70.000, foi rateada pelas horas de atendimento: 70% para a usinagem, 30% para a montagem. Os R$ 480.000 fecham: R$ 294.000 mais R$ 186.000.
Com 3.500 horas-máquina na usinagem, a taxa do centro é de R$ 84 por hora. Com 6.200 horas-homem na montagem, R$ 30 por hora. Um produto que consome 0,5 hora de usinagem e 1 hora de montagem carrega R$ 72 de custo indireto de fabricação por unidade, além da matéria-prima. No custeio pleno, as despesas administrativas e comerciais do mês, digamos R$ 220.000, seriam ainda rateadas sobre os produtos, por exemplo como percentual sobre o custo fabril, e o "custo pleno" unitário subiria de acordo.
Repare no que a conta fez e no que ela não fez. Ela distribuiu tudo, com disciplina e auditabilidade. Mas cada passo dependeu de uma base de rateio escolhida por conveniência, e o resultado muda se a base mudar. É a diferença entre ratear e medir, que discutimos em rateio de custos indiretos.
Onde o RKW ajuda e onde ele engana
As forças são reais. O RKW dá visibilidade departamental: cada gestor de centro vê o seu custo e responde por ele. Fecha com a contabilidade, porque parte do razão. E é barato de operar: um mapa, bases simples, rotina mensal estável. Como disciplina de controle orçamentário por centro, segue útil.
Os limites também. Primeiro, as bases de rateio por volume distorcem: o produto de alto volume subsidia o de baixo volume e complexidade alta, porque horas-máquina e número de funcionários não medem o consumo real de apoio. Segundo, a capacidade ociosa fica escondida dentro das taxas: se o volume cai, a mesma conta de custos é dividida por menos horas, a taxa sobe, o produto "encarece" no papel sem que nada tenha mudado na fábrica, e o preço calculado sobre esse custo entra na espiral de perder volume e encarecer de novo. Terceiro, o método para no produto: cliente, canal, pedido e entrega, onde a margem de fato se decide, ficam fora do mapa.
E há um limite normativo que convém dizer com clareza: o custeio pleno, marca registrada do RKW, não é aceito para avaliação de estoques na contabilidade societária e fiscal brasileira, que exige o custeio por absorção, sem despesas administrativas e de vendas no estoque. O RKW pleno é uma ferramenta gerencial, sobretudo de formação de preços, não um substituto do custeio societário. A comparação entre os princípios está em custeio por absorção vs custeio variável.
RKW vs TDABC: rateio por centro ou tempo medido
| Custeio RKW | TDABC | |
|---|---|---|
| Unidade de análise | Centro de custos | Atividade, com equação de tempo |
| Como o custo chega ao objeto | Bases de rateio por volume | Minutos consumidos vezes taxa da capacidade |
| Capacidade ociosa | Diluída nas taxas dos centros | Medida e reportada em linha própria |
| Alcance | Até o produto | Produto, pedido, cliente e canal |
| Despesas de estrutura | Rateadas ao produto no custeio pleno | Modeladas onde há relação causal, senão mantidas como custo do período |
| Esforço de manutenção | Baixo, rotina contábil mensal | Moderado, equações revistas quando o processo muda |
Os dois não são inimigos. O arranjo que costuma funcionar na indústria brasileira é manter os centros de custos para controle orçamentário e contabilidade, e construir sobre os mesmos dados financeiros um modelo TDABC para a pergunta que o RKW não responde: quanto custa servir cada cliente, pedido e canal, e quanto da capacidade instalada está paga e parada. É um modelo operacional que montamos em seis a dez semanas, mantido depois na plataforma CostCtrl.
Perguntas frequentes
- O que é o custeio RKW?
- É o método de custeio por centros de custos de origem alemã, batizado com as iniciais do Reichskuratorium für Wirtschaftlichkeit. Acumula os custos por centro, rateia os centros auxiliares aos produtivos e leva o custo aos produtos por taxas de centro. No formato pleno, rateia também despesas administrativas e comerciais.
- O método RKW é o mesmo que custeio pleno?
- Na prática brasileira, os termos andam juntos: custeio pleno (ou integral) é o traço distintivo do RKW, o de levar ao produto todos os custos e despesas, inclusive administração e vendas. A rigor, o RKW é a técnica dos centros de custos e do mapa de localização; o custeio pleno é o princípio que ela tipicamente carrega.
- Qual a diferença entre RKW e custeio por absorção?
- O custeio por absorção leva ao produto os custos de produção, e só eles; é o exigido para avaliação de estoques. O RKW pleno vai além e rateia também despesas administrativas, comerciais e até financeiras. Por isso o RKW é ferramenta gerencial e de formação de preços, não método societário.
- O que é rateio de custos?
- É a distribuição de um custo comum entre centros ou produtos por uma base escolhida, como horas, área ou número de funcionários. O rateio é uma convenção, não uma medição: mudar a base muda o custo de cada produto sem que a fábrica tenha mudado. Essa é a fragilidade central do RKW clássico.
- O RKW ainda é usado no Brasil?
- Sim, amplamente, ainda que raramente com esse nome no dia a dia: a rotina de centros de custos, mapa de rateio e taxa horária por centro que fecha o mês em boa parte da indústria brasileira é RKW em funcionamento. No ensino de contabilidade de custos e de engenharia de produção, o método segue matéria corrente.
- Onde o RKW se encaixa entre os tipos de custeio?
- Ele é um método de apropriação por centros, que pode operar sob princípios diferentes: com custeio pleno na sua forma clássica, ou restrito aos custos de produção como um absorção departamentalizado. Ao lado dele estão o custeio variável, o ABC, a UEP e o TDABC, cada um respondendo a uma pergunta diferente.
Nota de fontes
A origem institucional segue o registro do próprio RKW alemão, criado em 1921 e ativo até hoje como RKW Kompetenzzentrum. A recepção brasileira do método e a discussão do custeio pleno seguem os manuais consagrados da área, em especial Eliseu Martins, Contabilidade de Custos (Atlas), e Antonio Cezar Bornia, Análise Gerencial de Custos (Atlas), que tratam o RKW como método dos centros de custos. A mecânica do TDABC é a de Kaplan e Anderson, Time-Driven Activity-Based Costing (Harvard Business School Press, 2007). Onde a prática varia de empresa para empresa, como nas bases de rateio, dizemos que é convenção, porque é.
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Miguel Guimarães, Sócio-fundador
Trabalhando com custos e lucro há mais de 25 anos. Apresentou o caso de cost-to-serve da Damco no Managing for Profit (Amsterdã RAI, dezembro de 2009), no mesmo programa que Robert S. Kaplan.
Ligue +351 910 313 731